A noite escura da Madre Teresa de Calcutá Uma santa que não acreditava em Deus

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A noite escura da Madre Teresa de Calcutá Uma santa que não acreditava em Deus

 No seguinte artigo, Leonardo Boff escreve sobre “a noite” escura de madre Teresa de Calcutá:

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá
recolhendo moribundos das ruas para que morressem
humanamente dentro de uma casa e cercados de
pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa
abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma
profunda experiência de Deus.

Qual não é a nossa surpresa, quando viemos saber de seu
profundo desamparo interior, verdadeira noite sem
estrelas e sem esperança de um sol nascente. Essa
paixão dolorosa durou por quase 50 anos. Já em agosto
de 1959 escrevia a um de seus diretores espirituais:

 “Em minha própria alma sinto uma dor terrível. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que Ele verdadeiramente não existe”.

Numa outra ocasião escreveu: “Há tanta contradição em minha alma: um profundo anelo de Deus, tão profundo que me faz mal; um sofrimento contínuo e com ele o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem cuidado; o céu não significa nada para mim, parece-me um lugar vazio”.

Sabemos que muitos místicos testemunham esta experiência de obscuridade. Constatamo-lo em São João da Cruz, em Santa Teresa D’Avila, em Santa Teresa de Lisieux, entre outros. Esta última, tão meiga e expressão da mística das coisas cotidianas, escreveu em seu Diário de uma Alma:” Não creio na vida eterna; parece-me que depois desta vida mortal, não existe nada: tudo desapareceu para mim, não me resta senão o amor”.

Conhecida é a noite escura de São João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche obscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito “obscura y terrible” na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

Especialmente a modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro imenso aparato tecnológico que criou, vive também esta ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então não seria Deus. Mas é o fato de que nós o matamos, vale dizer, ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou esta experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur). Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial.

Suspeitamos que Jesus conhecesse esta noite terrível. No Jardim das Oliveiras sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu: “Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa a ponto de dizer:”Deus verdadeiramente não existe” nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus. “Deus ninguém jamais viu”atestam as Escrituras. É o “nosso saber não sabendo, toda ciência transcendendo” no dizer de São João da Cruz. Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser; é aderir a uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem” (Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível. Crer é uma aposta no dizer de Pascal que conheceu também a sua noite escura.

Simone Weil, a judia que se na última guerra, se converteu ao cristianismo, mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão: “Se quiseres saber se alguém crê de Deus, não repare como fala de Deus, mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora destes valores. Quem os vive está na direção dele e junto dele mesmo que negue a Deus.

Madre Teresa de Calcutá no amor aos moribundos estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora que já se transfigurou viverá a presença de Deus face a face no amor e na comunhão.

                                                                                                  *Leonardo Boff

 

By | 2016-09-24T14:50:51+00:00 setembro 24th, 2016|Artigos, Notícias|Comentários desativados em A noite escura da Madre Teresa de Calcutá Uma santa que não acreditava em Deus

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